Como ouvirão?

Era 4 de novembro de 2014…


O que pretendemos com a nossa vida cristã além das bênçãos? Que disposição temos nós, cristãos além do culto da família no domingo? O que cremos nós para além do cuidado de Deus com nossas vidas aqui, na terra?

Até que parte do evangelho suportamos ir quando as palavras são mais justas do que confortáveis?

Amamos somente a bondade de Deus ou também queremos a sua justiça?Não há como viver o evangelho pela metade. Ao nos convertermos à fé em um Deus que é criador, em um Filho que é redentor e em um Espírito Santo que é consolador passamos de forma sobrenatural e enxergar as coisas de outra maneira porque ninguém que conhece Cristo verdadeiramente consegue seguir sem transformação.

De nada vale a fé sem obras e se conhecemos o bem e não o fazemos já estamos pecando. É o que diz na carta de Tiago, na bíblia. Nossa obediência a Deus contempla fazermos aquilo que nos parece loucura, mas que confiando Nele torna-se nossa missão e alegria.

Na quinta-feira eu cheguei em cima da hora na rodoviária com o João Felipe para embarcar para a casa de meus pais em Palmas, mas esqueci o documento dele. Não teve choro, não pudemos ir.

Transferi a passagem para o dia seguinte. Ainda sou muito nova na fé e vivo escorregando nas minhas humanidades, então fiquei bastante chateada e inconformada num primeiro momento. Mas aí veio a presença de um Deus cuidador, e que para fazer sua boa, perfeita e agradável vontade tem planos  mais altos que os nossos.

No dia seguinte, desta vez com documentos em mãos o João e eu embarcamos. Pouco tempo depois estava eu com aperto no peito, com a impressão de que eu deveria falar do amor dede Deus bem ali, naquele ônibus. Sim, no ônibus: para desconhecidos e sem saber o que falar. Desisti de qualquer timidez ou medo para poder seguir viagem sem ter um tipo de colapso nervoso.

Numa das cidades mais próxima de onde eu iria desembarcar não havia ninguém para entrar no ônibus e eu tive certeza que era aquela a hora e eram aqueelas pessoas. Levantei, pedi licença e falei.

Em seguida um rapaz chamado Alan, sentado na poltrona da frente virou para mim e disse que tinha sido muito bom, que ele estava naquele dia deixando o CAPS – AD em Marmeleiro por problemas com alcoolismo. Ao meu lado a Quelita, uma crente da Assembleia de Deus contou que foi tocada pela palavra por que às vezes ficava aflita com os estudos e a falta de tempo para sua vida com Deus.

Mesmo que não conheçamos as pessoas que cruzam nosso caminho, falar sobre quem Deus é nunca falha. E naquele ônibus onde uns viajavam a passeio, outros a trabalho, uns tristes, outros alegres, uns com fé outros sem, foi esta a passagem bíblica que Deus trouxe ao meu coração:

Observei outra coisa debaixo do sol.

Aquele que corre mais rápido nem sempre ganha a corrida, e o guerreiro mais forte nem sempre vence a batalha.

Às vezes os sábios passam fome, os sensatos não enriquecem, e os instruídos não alcançam sucesso.

Tudo depende de se estar no lugar certo na hora certa.
Ninguém é capaz de prever quando virão os tempos difíceis.

Como peixe na rede ou pássaro na armadilha, as pessoas caem em desgraça de modo repentino.

Eclesiastes 9:11,12

Quanto dessa fé perseverante se achará?

Em Lucas 18:1-8, que na bíblia a Mensagem está como “A história da viúva insistente” e na Scofield está como a “parábola da insistência recompensada” encontrei algo precioso,
Para você que não conhece a história, brevemente gostaria de relatar a respeito dessa cidade em que havia um juíz que não temia a Deus (era incrédulo) e nem se importava com os homens (era indiferente). E nessa cidade tinha uma viúva que batia de forma insistente na porta desse juíz, pedindo que ele resolvesse um caso dela, um caso de violação de seus direitos. E o juíz um dia decidiu que ia atendê-la e resolver seu problema para que ela não voltasse mais.

Então Jesus questiona: se esse juiz “sem coração” atendeu ao pedido da viúva, Deus não atenderia aos que buscam Ele?

Considero como verso principal o 8: “Digo-vos que depressa lhes fará justiça. Quando porém vier o Filho do Homem, porventura achará fé na terra?”. Quando falamos de fé podemos nos remeter a fé que os não cristãos têm na vida, nas pessoas, fé no futuro. Mas nessa passagem, segundo a nota de referência, Jesus fala da fé no conjunto da verdade revelada e por isso gostei também da versão A Mensagem que pergunta: “quanto dessa fé persistente o Filho do Homem vai encontrar na terra quando voltar?”.

Entendi duas palavras-chaves com diferentes significados na lição principal desse texto: Relacionamento e confiança.

Esse tipo de fé tratado no texto só é possível através da revelação que vai além do intelecto e depende de um relacionamento com Jesus através da mensagem do evangelho e da oração diária. Todos os dias um bate-papo sincero, leve, livre… Quando Jesus menciona o pedido insistente da viúva Ele está nos dizendo: não tenha medo de insistir, eu quero mesmo me relacionar com você!

Já a confiança me fez ter um link com o capítulo anterior (Lucas 17:31), que fala sobre a volta de Jesus. Ele mesmo orienta para que nesse dia aquele que estiver no telhado fazendo algum conserto não tente descer para pegar algo que queria guardar, mas confie, e permaneça onde e como está, pois quem tentar salvar sua vida vai perdê-la, mas quem perdê-la, sem dar um jeitinho de ganhá-la, terá a vida salva.

Isso tem muito a ver com entregar as coisas que mais damos valor, tendo a certeza de que em nada sairemos perdendo. Isso é confiança, porque Deus sabe o valor que as coisas têm para nós. Além disso também conectei a fala de quando Jesus diz que se o juíz mau atende a um pedido, como Deus não atenderia aos quais Ele se relaciona, ao verso de Mateus 6, que diz que se Deus veste os lírios do campo e dá de comer as aves que nada fazem, quem dirá aos homens que tem valor para Deus.

mandamento contido nessa passagem bíblica é: confie, confie, confie!

E a promessa é de que Deus é justo a respeito das coisas que pedimos a Ele e se dá conforme nossa fé como condição para esse relacionamento de confiança. Ele nos fará justiça!

Deus não aspira ser nosso ídolo, nem nosso caixa eletrônico, nem nosso pronto-socorro, embora haja Nele poder para ser tudo isso, ele quer que o conheçamos para nos encontrar com o que somos. 

25/11/2015 – Lucas 18: 1-8

NÃO TEMA O QUE ELES TEMEM

Já é lugar comum a constatação de que os tempo difíceis em que vivemos são agravados pela polarização de opiniões em todas as áreas. Não apenas se discute ideologia ou posição política, mas ciência, religião, arte, economia e por aí vai. Tem horas que dá uma saudade de qualquer outro tempo, que me tirasse deste momento de tanta gente sabendo tanto de tudo e totalmente dispostos a lutar até a morte por sua opinião.

Alienação não é algo bom, faz com que o povo seja conduzido como rebanho sem vida, mas no pé em que estamos, de intenso envolvimento com todas as questões, inclusive da qual na verdade nem entendemos, que mesmo com distanciamento social, a convivência ainda que virtual é sempre um campo de possível hostilidade.

Hoje reli, mais ou menos pela terceira ou quarta vez nas duas últimas semanas, o capítulo 8 do livro do profeta Isaías na bíblia.Alguns versos me deixaram bastante pensativa, especialmente pelo momento que o povo do qual os relatos falam estava vivendo.

Era iminente o ataque de povos poderosos aos israelitas, fruto de sua conduta sempre rebelde, inconstante, infiel com Deus que os libertou e os forjou como nação. Do verso 9 ao 22, há um diálogo que envolve o Senhor (Deus), o profeta Isaías e a figura do messias prometido (Jesus).

Em resumo, o que quero dizer utilizando esta passagem, é que há, da parte de Deus uma orientação muito séria da parte de Deus para Isaías: não ande pelo caminho deste povo, concordando e repetindo tudo o que dizem. Não tenha medo do que eles têm medo, mas sim, tema ao Senhor, santifique-se por causa do Senhor, seja a grandeza, o poder de Deus o motivo do seu espanto.

E então, Isaías conclui que Deus seria como um abrigo, mas também seria aquilo que iria ofender certas convicções. Matthew Henry, em seu comentário bíblico sobre este verso afirma que se as coisas de Deus são ofensa para nós, nos desfarão. Ou seja: se aquilo que Deus estabelece como bom e correto nos incomoda, ao invés de serem boas para nós, serão o motivo de nossa destruição. A bíblia chama isso de “pedra de tropeço”.

Portanto, em meio as paixões ideológicas, as certezas científicas e a fidelidade cega a outros seres humanos são apontamentos de um coração que não está comprometido com o Senhor. Isaías recebe outro direcionamento sobre sua postura em meio as dificuldades e anseios do próprio povo de Deus: “preserve aquilo que você sabe sobre mim, e garanta que o meu povo tenha a minha lei no coração deles”.

Isaías responde, nos dando o exemplo de como precisamos nos posicionar: Esperarei no SENHOR, a Ele aguardarei.

Precisamos nos colocar a par dos fatos, estudar, ler, conversar com pessoas, mas como transmitimos isso, como comunicamos nossa posição, fará a diferença a respeito do testemunho que Deus nos pede que guardemos. Portanto não se trata de uma imparcialidade isenta e dormente, mas de uma imparcialidade que nos garanta posicionamento sem oportunismo, não seguindo o rebanho, mas seguindo O PASTOR.

Isaías 8

Enfurecei-vos, ó povos, e sereis despedaçados; dai ouvidos, todos os que sois de países longínquos; cingi-vos e sereis despedaçados, cingi-vos e sereis despedaçados.
Forjai projetos, e eles serão frustrados; dai ordens, e elas não serão cumpridas, porque Deus é conosco.
Porque assim o Senhor me disse, tendo forte a mão sobre mim, e me advertiu que não andasse pelo caminho deste povo, dizendo:
Não chameis conjuração a tudo quanto este povo chama conjuração; não temais o que ele teme, nem tomeis isso por temível.
Ao Senhor dos Exércitos, a ele santificai; seja ele o vosso temor, seja ele o vosso espanto.
Ele vos será santuário; mas será pedra de tropeço e rocha de ofensa às duas casas de Israel, laço e armadilha aos moradores de Jerusalém.
Muitos dentre eles tropeçarão e cairão, serão quebrantados, enlaçados e presos.
Resguarda o testemunho, sela a lei no coração dos meus discípulos.
Esperarei no Senhor, que esconde o seu rosto da casa de Jacó, e a ele aguardarei.
Eis-me aqui, e os filhos que o Senhor me deu, para sinais e para maravilhas em Israel da parte do Senhor dos Exércitos, que habita no monte Sião.
Quando vos disserem: Consultai os necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram, acaso, não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos?
À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva.
Passarão pela terra duramente oprimidos e famintos; e será que, quando tiverem fome, enfurecendo-se, amaldiçoarão ao seu rei e ao seu Deus, olhando para cima.
Olharão para a terra, e eis aí angústia, escuridão e sombras de ansiedade, e serão lançados para densas trevas.

Isaías 8:9-22

ESSE NÃO É MAIS UM TEXTO SOBRE RACISMO

Nos últimos dias, a loucura do tempo que estamos vivendo, proporcionada por um vírus que afronta a ciência, a economia, o Estado, e a vida, de repente uma onda de violência cresce sobre nós.
Sim, nós: nós humanidade, nós, sociedade.
George Floyd, sem ar. João Pedro, brincando no quintal. Miguel, no trabalho com a mãe. Três gerações de homens que se foram, inocentes. Floyd e João Pedro nas mãos da polícia fardada, cega pela violência, o Estado. Miguel, nas mãos negligentes da patroa da mãe, a esposa do prefeito, o Estado. Até aí, falamos que vidas negras importam, foram três mortes. Elas importam!

Mas de repente eu vejo as imagens de pelo menos 4 pessoas agredindo brutalmente uma mulher branca em uma rua.
Ticyane é uma médica, que tem trabalhado em plantões no tratamento de pacientes com Coronavírus e precisando dormir, depois de nenhuma resposta das autoridades, resolveu tomar providências sobre uma festa com som alto. A médica já reconheceu que errou por ter quebrado partes de um dos carros dos participantes da festa. Mas não dá pra encontrar justificativa para o que estas pessoas fizeram, como agiram com ela. Ticyane não morreu, mas ficou ferida, teve partes do corpo quebradas, não pode trabalhar e está assombrada pelo medo da própria rua onde mora.
Um dos agressores de identificou como policial, e o posto do Corpo de Bombeiros bem ao lado não a acolheu, não a socorreu. Eis aí outra vez o Estado.

O que está acontecendo? Essa pergunta sussurra bem lá no fundo de meu coração. Será que a pandemia trouxe para a luz clara, a doença que estava escondida na correria do nosso dia a dia? Se pudéssemos lidar com o racismo poderíamos saber o rumo da luta, o discurso, quem sabe poderíamos logo chegar ao fim de um problema tão terrível. Mas não é só isso, é isso e muito mais. O que dizemos sobre uma mulher branca sendo espancada por outros brancos, inclusive por outra mulher?
Não dá pra respirar mesmo.
Vidas negras importam.
A vida de Ticyane: mulher, branca, médica importa.
A vida importa, e parece que toda vez que isso é violado, há uma sombra, uma presença hostil de uma parte do Estado.

RACISMO É UM DOS FRUTOS PODRES DA INJUSTIÇA QUE TENTAMOS NEGAR

Mirtes e Miguel

Quando saí do quarto hoje pela manhã, no fundo do corredor, João já estava de pé, escovando os dentes na porta da cozinha e logo cedo, dançando com seu jeito adolescente de ser.
Meu filho estava acordado.
Sobre ele, outra vez se renovaram as misericórdias do Senhor, como a bíblia diz que acontece todas as manhãs.

Mas lá no Recife uma mãe que enterrou seu filho de 5 anos já não mais tem seu filho despertando pela manhã. Em entrevista na TV ela expressa sua dor e mesmo sem demonstrar raiva ou ira contra a patroa, suas palavras jogam na nossa cara – a sociedade – a injustiça que tentamos esquecer que existe.

E injustiça que preferimos chamar de “mimimi”, a injustiça que preferimos deixar pra lá pra não politizar: mas a verdade é que a patroa foi, no mínimo negligente e teve, pela justiça, apesar do caso ser divulgado, o nome e o rosto preservados.

Uma fiança de 20 mil e a liberdade de responder um processo em sua casa, de onde ela deixou Miguel, de 5 anos sair para procurar a mãe, a empregada doméstica que saiu passear com o cachorro e teve da patroa a palavra de que podia ir, que ela olharia seu filho por aqueles instantes. Mas a patroa se rendeu ao capricho de uma criança que queria a mãe, e o deixou sozinho em um elevador, onde o menino apertou vários andares e se perdeu ao sair do elevador no 9º andar, de onde caiu e morreu.

Mirtes, mãe de Miguel disse que ao ver as imagens do circuito interno do prédio, conclui uma única coisa: faltou um pouquinho só de paciência da patroa, Sari, que pelo que se dão as notícias, estava ocupada com a manicure em sua casa, fazendo as unhas no momento em que a empregada passeava com o cachorro.

Dizer que se fosse do contrário, se a empregada deixasse o filho da patroa sair sozinho e ele morresse, ela seria exposta pela justiça, presa sem fiança e execrada pela mídia e sociedade (nós) é o óbvio.

Note: não mencionei a cor da pele da patroa, nem da empregada e seu filho. Porque o racismo não se dá a partir do nada, mas é um dos frutos podres da injustiça e desigualdade.

Note: eu não acho que a patroa foi racista ou que agiu como agiu porque o menino era negro ou porque sua empregada é negra. A injustiça acontece quando na justiça as pessoas são tratadas de forma diferente. Chego a me compadecer, inclusive do estado de desgraça em que se encontra a família de Sari, a patroa.

A cor, ou raça, infelizmente parece ser um elemento recorrente na montagem do cenário e personagens de casos como esse. Esta realidade não pode ser ignorada, desprezada.

Hoje eu chorei com os que choram, porque meu coração doeu e eu queria muito poder abraçar Mirtes, tão simples, tão sincera, tão humana, tão real.

Mirtes, em entrevista, denuncia o coração de alguém que espera o pior da justiça, porque a história assim se faz para pessoas como ela:

“Ela confiava os filhos dela a mim e a minha mãe. No momento em que confiei meu filho a ela, infelizmente ela não teve paciência para cuidar, para tirar [do elevador].”

“Se fosse eu, a essa hora, já estava lá no Bom Pastor, apanhando das presas por ter sido irresponsável com uma criança”

“Meu nome estaria estampado e meu rosto estaria em todas as mídias. Mas o dela não pode estar na mídia, não pode ser divulgado”

https://www.instagram.com/larimazaloti/

A verdade, no partir do pão

Quando estavam à mesa, ele tomou o pão e o abençoou. Depois, partiu-o e lhes deu.
Então os olhos deles foram abertos e o reconheceram. Nesse momento, ele desapareceu.

Lucas 24:30,31

emau_1

Imagem: A ceia em Emaús – Caravaggio

Depois da ressurreição de Jesus, sua primeira aparição foi para dois discípulos que estavam caminhando na estrada, com destino a uma cidade chamada Emaús. Jesus, que não foi reconheci

do, se juntou a eles na caminhada, e perguntou o que eles estavam conversando tão concentrados. Eles começaram a contar sobre a morte de Jesus com muita tristeza, quase que desapontados, dizendo que achavam que Jesus era quem os resgataria. E quando eles falavam em resgate, falavam do domínio do império Romano sobre Israel.

Mas toda a instrução que Jesus deu, apontando para sua morte e garantindo sua ressurreição, e até as notícias contadas pelas mulheres que encontraram o túmulo vazio e receberam a informação de que Jesus não estava mais ali, mas vivia não foi suficiente: eles viviam o luto como de quem perde para sempre alguém que ama.

Quando os discípulos iam chegando em casa, Jesus continuou, como quem fosse adiante naquele caminho. Mas os homens o chamaram para uma ceia, e o convidaram a se hospedar na casa deles, pois já estava tarde.

Na mesa, quando Jesus partiu o pão, foi reconhecido.

O que fez com que os discípulos enfim percebessem quem é que estava com eles? O que causou tamanha identificação daquele homem com Jesus que os fez entender que ele estava mesmo vivo? Que detalhes havia naquele partir do pão?

Minha imaginação vai longe. Penso muito em pessoas que amo, e de manias, pequenas atitudes que conheço de algumas delas e que me fariam reconhecê-las na mesa. O jeito de comer, a forma como serve, o olhar, a conversa aconchegante. Como deve ter sido maravilhoso este momento. Jesus, o mestre, o rei, o salvador.

No partir do pão, não foi apenas a pessoa de Jesus que os discípulos reconheceram, mas também a verdade. Tudo no que eles acreditaram naquele tempo vivendo com Jesus antes da morte se confirmava: que grande alegria é se dar conta da verdade! Isso me leva a pensar em como nossas atitudes podem levar outras pessoas a reconhecer Jesus.

Como tenho partido o pão?

 

Pensar não é pecado, amados

ff85a6cf60a0c36cbecd1972b0c4729d

Imagem: René Magritte

Algumas coisas nisso tudo que está ocorrendo me incomodam bastante. A pior delas é a adoração de olhos fechados ao presidente “que veio nos salvar do comunismo e da corrupção”. O que eu quero dizer, e por isso me expus no texto anterior, é que eu já estive do outro lado e já vi esse filme. O que os seguidores incondicionais de Bolsonaro fazem é a mesma coisa, sem tirar nem pôr, o que os seguidores incondicionais da esquerda, especialmente na pessoa de Lula fazem. Eu já estive lá. Esse sentimento eu conheço. Talvez para os bolsonaristas seja algo novo, porque nunca antes tiveram esta simpatia ou esperança em alguém na política, mas pare enquanto é tempo! 

Eu ainda estava no PT quando via de perto e me incluo nisto: não importava o crime ou erro, estávamos com ele até o fim. Isto é o que representa os que, mesmo vendo a coisa toda ruir, continuam sem confrontar, sem repreender. Cristãos: fomos chamados a isto: expor a verdade, viver por ela e por mais ninguém nem nada. 

Parem de ler quem te promete mostrar os dois lado mas só defende um. Confie em quem tem coragem de assumir erros. Confie em quem sabe dizer que as coisas mudaram e é melhor repensar o caminho. Pare de receber correntes de mensagem xiitas no whats e passar para outros: especialmente se você não entende nada do funcionamento da política. Primeiro pesquise, não apenas o que você quer ler, mas o outro lado, mesmo que doa. 

Os pontos abaixo levam em consideração que apenas Deus é digno de minha confiança, que  apenas Ele pode de fato, intervir para que a dignidade humana seja provida. Mas considerando também, que Deus chama a humanidade para co-criar com Ele, tendo autonomia em muitas áreas da vida, exercendo liberdade e responsabilidade. Por isso é que, não posso simplesmente deixar pra lá, dizendo que não confio em homens, mas apenas em Deus – e essa vai ser a postura de muitos cristãos – e está errada. Se temos compromisso com a verdade, não podemos colocá-la em segundo plano porque parece que surgiu um primeiro plano melhor.

Cheguei ao absurdo de ver a justificativa de um líder cristão para a possível intervenção de Bolsonaro na escolha do diretor da Polícia Federal para afastar investigação de seus filhos, como algo compreensível, pois um pai deve defender um filho. Como assim? Então a verdade sobre ser moral ou imoral é relativa?

Pontos para reflexão:

  1. Quando Moro entrou no governo como ministro, Bolsonaristas foram a loucura. Agora dizem que não votaram em ministro, votaram no presidente. E repetem como papagaios alucinados: “continuo com Bolsonaro: não votei em ministro”. Então podemos imaginar que Bolsonaro deve reinar sozinho: totalitarismo, falta de abertura para conselhos e pensamento diferente. E agora se juntam ao coro da esquerda que repete sem cansar: Moro não tem caráter, porque nem deveria ter assumido o cargo de ministro. Eu já acho que Moro tem caráter, mas não deveria ter entrado para o governo, com ele fora, exercendo seu trabalho como Juíz, o Brasil ganharia muito mais. Mas já que entrou, a sua saída desta forma me tira um peso na consciência sobre o que eu pensava dele.
  2. Quando Moro estava liderando a Lava Jato e colocou na cadeia nomes poderosos de partidos ligados aos processos, entre eles Lula, a esquerda o acusava de ser do PSDB, e a direita bolsonarista o defendia de olhos fechados, sem se preocupar com a vida partidária dele. Agora de repente, Moro tem uma passado negro e ligações perigosas com a esquerda. 
  3. Os maiores escândalos, que deram voz, rosto e nome a quem estava cometendo corrupção, saíram de vazamento de conversas. Quando Moro vazou, depois do tempo permitido de grampo, a conversa de Dilma e Lula, esquerdistas rechaçaram Moro por sua falta de integridade com a justiça e desconsideraram o conteúdo nefasto de trama contra o Brasil. Os bolsonaristas não ligaram nenhum pouco se a justiça havia sido burlada, importava provar o que eles sempre quiseram. Agora, que Moro mostra uma conversa pessoal sua para provar o que está falando, parece que os bolsonaristas não se importam com o teor feio, vergonhosos e sem justificativas, especialmente com a Zambelli. Mas importa que ele foi traidor por mostrar a conversa. Se não consideram errado o que falaram, qual é o problema? Mas se há um crime ali, eu prefiro que o Moro pague por isso, mas que o conteúdo também leve essas pessoas a público com sua imoralidade.
  4. Em seu pronunciamento sobre saída de Moro, Bolsonaro comenta sobre a vó de sua esposa que já foi presa por tráfico de drogas e a sogra que foi indiciada e teve o processo arquivado, por falsidade ideológica. No discurso, Bolsonaro disse que a sogra fez isso, alterou documentos e diminuiu a idade, para poder fazer uma plástica, e minimizou. “Na sua inocência, em vez de fazer uma cirurgia plástica, pra ficar mais jovem, mais bonita, ela resolveu fazer uma cirurgia plástica na sua certidão de nascimento, diminuindo dez anos a sua idade, esse foi o crime dela”. Pera aí! Nós, cristãos, achamos mesmo que tudo bem o presidente minimizar isso? Se elas cometeram crime, e estão quites com a justiça, amém! Mas endossar essa passada de pano do presidente, como se não fosse problema algum é demais! Aliás, por que mesmo ele falou sobre isso nesse pronunciamento? Ah, tem um tio da Michele que foi preso também, por envolvimento com a milícia em Brasília. 
  5.  “Pai, eu saí com metade do condomínio, nem lembro quem é essa menina, se é que eu estive com ela”, disse o filho “04”, de “20, 21 anos” de Bolsonaro para o pai sobre a informação de que ele teria envolvimento com a filha de um sargento investigado no caso do Adélio (facada). e Bolsonaro continua o discurso: “Hoje a vida é assim”. Atrás dele, meio escondida, nossa ministra Damares, pastora, cristã, que lançou campanha do governo incentivando a galera a dar uma segurada na vida sexual. O presidente que defende os valores cristãos… para os outros né? Para os filhos dele não.
  6. Assim como Mandetta, Bolsonaro se referiu a Moro como alguém intratável, difícil de conviver, desleal… É muito curioso como as coisas mudam quando alguém discorda dele. Como o passado dos ministros dissidentes se torna obscuro. Mas as pessoas preferem acreditar na inocência do presidente que nomeou ministros na confiança de palavra, sem nem sequer averiguar, além do que já sabia muito bem. Bolsonaro estava no congresso há 28 anos antes de ser presidente (acredite..ele era um parlamentar que mudou de partido muitas vezes) e conhecia muito bem nomes como o de Mandetta e Moro. E se eles tem coisas erradas em suas vidas, que consertem, mas por favor, pensem sobre o que motivou Bolsonaro nomear pessoas tão horríveis, como agora dizem que eles são.
  7. Bolsonaro diz que jamais se submeterá a um subordinado. Você sabe o que a Bíblia fala sobre liderança e autoridade? Um rei jamais tinha todo o poder. Um governante jamais estava imune a repreensões. Primeiro, porque havia Deus acima dele. Segundo, profetas eram pessoas que comunicavam ao rei a palavra de Deus e os repreendiam, como fez Samuel a Saul, como fez Natã a Davi. Fosse por pecado contra a nação, fosse por imoralidade. Nuna reinavam absolutos. Jesus lavou os pés de seus discípulos. Bolsonaro deve exercer sim sua liderança, mas para se dizer um governo cristão, deveria seguir o modelo bíblico.
  8. Bolsonaro reclamou de Moro ser desarmamentista. A mesma visão bíblica que defende, através da constituição de Moisés para o povo hebreu, que cada cidadão deve ter sua arma, também revela que Moisés não moldou o governo para ser bélico, militarizado. Então cuidado, porque ao cobrir seu pensamento com a bíblia de um lado, precisa não deixar outro lado descoberto. Mas lembre-se: para que cada cidadão tivesse sua arma, a nação foi formada e preparada para essa situação de vida: o Brasil não! Então, não seja ignorante!
  9. Bolsonaro disse que quando Moro pressionou para escolher novo nome para PF, caso houvesse mesmo a exoneração, ele lembrou da lei que diz que pe prerrogativa do presidente esta escolha. Ok! Nem tudo é legal é moral. Se o compromisso do Bolsonaro é de fato com o combate à corrupção e aos corruptos, porque não abrir mão desta prerrogativa, sendo que, a condição para Moro assumir foi a de liberdade total neste campo da corrupção? Se havia a confiança da carta branca no convite, uma prerrogativa como esta deveria ser abdicada. 
  10. Parece que muitos estão achando normal uma parlamentar oferecer ajuda de convencimento do presidente sobre um cargo no STF para Moro. “Faremos ele prometer”, diz Zambelli. Ela fala do STF em seguida do pedido para que Moro aceitasse o nome que o presidente queria. Ela achou que podia ter essa conversa com Moro, já que ele foi seu padrinho de casamento. Isso tudo soa muito mal para mim, é normal para você?

Pronunciamento de Bolsonaro

Crimes na família da esposa do presidente

Toda decepção é um alerta de idolatria

Não tenho pretensão alguma de fazer uma análise do contexto político do momento. Nem mesmo quero defender Moro ou Bolsonaro (nem acredito que estou colocando os dois em pólos opostos, como se fosse Bolsonaro ou Lula, Moro ou Lula), mas o que quero é apontar algumas reflexões pessoais, especialmente no ponto de vista de fala dos cristãos. Isso, pensando na hipótese de que cristãos levam em conta uma verdade absoluta, não relativizando, não contextualizando, mas desejando que esta verdade, que é uma pessoa chamada Jesus Cristo, em quem tudo está contido, seja conhecida e reconhecida.

Quero compartilhar com você sem muita poesia, que ultimamente Deus tem falado comigo sobre meu coração, dizendo que toda decepção é um indício de idolatria. Por que? Porque se minhas expectativas e meu foco para viver estão em Deus, partindo do pressuposto que Deus é inteiramente bom e santo, não há possibilidade de decepção. Então: se há decepção, minha expectativa e foco para viver não estavam em Deus, mas em alguém, em algo, em uma causa. 

Você está decepcionado com Bolsonaro? Está decepcionado com Moro? Repense sua relação com a figura deles. Eu não estou decepcionada com nenhum dos dois, e me sinto bastante leve por conta disso: meu alerta de idolatria não foi acionado.

Mas…

Quem me conhece desde antes dos últimos 6 anos, não precisava ter sido íntimo a mim para saber que eu caminhava em cima de um ideal,  este estava ligado ao pensamento que chamamos de “esquerda”. Eu sempre atuei em meios de counicação e hora ou outra, meus ideais eram expostos em minha narrativa. Eu realmente me afinava com ideias e pressupostos que partiam do marxismo e seus derivados. Votei nos partidos de esquerda desde os meus 16 anos quando euforicamente fiz meu título de eleitor. Me envolvi com movimento estudantil, predominantemente alinhado com a esquerda e as ideias comunistas, sempre simpatizei aos movimentos sociais e venerei líderes políticos. Isso tudo porque realmente acreditava que alguém precisava me oferecer tutela, alguém havia de prover ao povo um modo digno de vida. E lutava por isso como eu podia. E conservo hoje, em meu coração, pessoas incríveis que conheci, e que são comprometidas com aquilo que acreditam.

Quando me tornei cristã eu estava filiada ao PT, trabalhando com o partido, e quando olhei para o evangelho e a se e fome de justiça a qual Jesus chama todos, eu acreditava que era compatível amar Jesus e estar onde eu estava, pois era como estar do lado certo da força. Eu acreditava nisso, de verdade. Mas conforme o tempo foi passando e quanto mais eu lia a bíblia, eu percebia que havia muitos pontos de divergência. Jamais pensei que eu deveria passar a outra margem do rio, ou do outro lado do balcão, para compactuar do que se chama de “direita”, mas achava que deveria abandonar o que havia em meu coração a respeito da política. E eu sempre tive um coração político, e ainda tenho. E nisso, entrei como que numa abstinência das questões políticas enquanto estourava a crise de corrupção que estava guardada há mais anos que o PT pudesse estar no governo.

Um dia, quando já estava vivendo dentro de um movimento missionário cristão protestante, no qual estou até hoje, passava na TV o inimaginável: Dilma, então presidente do Brasil nomeava o ex-presidente Lula como ministro do governo. Era uma jogada para imunizar legalmente Lula do que estava começando aparecer por meio da Lava Jato. O Judiciário não deixou que isso se concretizasse, mas houve a tentativa. E nesse dia eu chorei. Nesse dia meu coração político se partiu em muitos pedaços. Sim, eu estava decepcionada. Toda a base de ideal sobre a qual eu caminhei como adolescente, jovem e adulta havia desmoronado. Em meu coração eu sabia: todos estavam certos, havia culpa, e pior, havia tentativa de se livrar da punição: não tinha arrependimento, reconhecimento de erro, nada. O restante do país e eu tratados com absoluta subestima. Nossa inteligência estava sendo desprezada.

Nesse dia o meu ídolo – a esquerda – se quebrou.

Recentemente, conheci um jovem advogado cristão, pai de família, com histórico de militância contra a corrupção. Conservador de direita, aberto para aprender mais sobre como a bíblia pode influenciar no fazer política. E interessado em ser candidato a um cargo público. De alguma forma eu fui vista por ele como alguém que ele gostaria de ter perto, trabalhar junto e construir pensamento e política com cosmovisão bíblica. Mas ele é extremamente adepto ao governo Bolsonaro e a fonte do pensamento que fez do Bolsonaro alguém elegível: não… não é a bíblia, mas é o filósofo Olavo de Carvalho. 

Mas mesmo diante dessas evidências de diferença de pensamento – porque como eu disse, não saí de uma margem do rio para passar ao outro lado – eu topei assessorá-lo e me desafiar a ajudar a  dar o tom de sua campanha – sempre pensando em como estar no governo sendo um cristão bíblico. Tivemos algumas conversas sobre a moderação necessária neste tempo polêmico de pandemia e as decisões que isso implica. Colocamos nossos pontos de vista e decidimos caminhar mesmo assim. Dias depois dessa conversa, ele me mandou um áudio dizendo que Deus havia falado com ele, e que de fato, ele estaria deixando de lado o foco de defesa desenfreada de Bolsonaro para abraçar pautas que trouxessem princípios bíblicos. 

Depois disso, tivemos uma reunião online bem encorajadora, definimos algumas atividades que deveríamos fazer, e muito empolgada, cumpri minha agenda e esperei dele um feedback, um ok sobre publicações, mas ele sumiu. Desapareceu. Não me respondeu mais. Resolvi dar uma olhada nas redes sociais dele e lá estava, como um dependente químico que recai: com postagens bolsolavistas inflamadas e inclusive, um aceno de mudança de partido e um silêncio absurdo em nosso chat do whatsapp. Não posso julgar a fraqueza dele, que não teve a mínima consideração e respeito por mim como profissional e irmã em Cristo, mas sim, me frustrei e quando isso estava se tornando em decepção, foi que meu alerta acionou: se a decpeção tomar conta do seu coração, é porque você estava idolatrando a ideia de voltar para a política, a ideia de ser parte de um novo ideal – o de direita e a pessoa como uma figura de salvação. Em tempo, toquei as praguinhas que estavam querendo devorar a plantação e descobri que Deus me livrou de um mal maior.

Lembra que eu disse não ter saído de uma margem para estar na outra, do outro lado do rio? Pois então, onde estou? Estou no rio, que flui e onde há vida, e por onde sigo firme na certeza de que há uma verdade absoluta que deve servir às duas margens, e não ser conveniente a uma hoje, e a outra amanhã. Estes dois casos de idolatria e risco de idolatria em minha vida só valem a pena serem expostos se eu conseguir que você olhe para dentro de si e repense a forma como está tratando o atual presidente e outras figuras públicas.

Meus dois exemplos reais servem para dizer: eu entendo você, a gente é tentado mesmo a produzir ídolos, a bíblia é clara sobre isso e Deus consciente desse traço de pecado horroroso que há em nós. Mas também é para dizer: ligue seu alerta de idolatria e o deixe ser ativado se for necessário. 

No próximo texto vou listar alguns tópicos de falas e situações atuais, tentando trazer um ponto de reflexão. 

adorac3a7c3a3o-ao-bezerro-de-ouro_andrea-di-lione-1596e280931675

Adoração ao bezerro de ouro”, óleo sobre tela do século XVII, do pintor italiano Andrea di Lione.

Em parte, à mesa

Quantas vezes você demorou para ver que mudou? Quanto tempo levou para notar que alguma coisa ficou para trás? E como foi que de repente, você se deu conta de que uma parte de você não está inteira?

A vida da gente se passa nas mesas afora, na espera do preparo da comida, no café que acaba e você oferece: vou fazer mais! E quando o sol vai embora e a noite chega e você nem vê, sentado à mesa, em conversas que nunca deixarão aquele dia ser esquecido.

Você já percebeu que a vida mergulhada no amor das companhias que nos cercam é mais segura? 

Só que a realidade não é feita de eventos, recepções ou refeições planejadas. Não apenas. Na dureza do dia a dia, a mesa acontece no olhar, em cinco ou dez minutos de conversa, no favor que você pede e no que você faz. A mesa pra valer nem sempre é na mesa mesmo, mas é mesa porque ali tem alimento.

Do que você tem se servido, o que você tem servido? 

Eu não quero culpar você, mas aquela parte que não está inteira está deixando alguém com fome. Algumas coisas que mudaram fizeram você tirar algumas cadeiras e também se recusar a sentar em outras mesas. 

Tem como partilhar o que não está inteiro? Será que ainda restam pedaços suficientemente generosos para você dividir com o outro? Afinal de contas, você tem sentido fome? 

Mesmo que apenas em parte, sirva. Sirva-se. Não espere um momento especial, nem mesmo ter todos os ingredientes. Talvez não dê pra esperar até o jantar e você precise logo sentar-se à mesa no meio da tarde. 

Na mesa se fecham acordos de paz, onde se se encerram ciclos, tempos, talvez onde se coloque limite em um relacionamento sem solução. É frente a frente, lado a lado que uma gargalhada inocente diz algo sobre uma mania sua, mas é estando em pé ao lado da mesa que você pode receber um olhar que vai mostrar que não é só uma mania, mas que seu hábito está ferindo alguém.

O que tem feito você desviar daquela mesa? Medo? Cuidado? Autopreservação? Indiferença? Egoísmo? Será que de repente você está tão vazio que não quer ser aquele que chega sem nada: será que você passou a cozinhar orgulho e é o que tem para oferecer?

O assunto parece ter ficado pesado. Mas acredite: a mesa nunca estará vazia. Existe alguém sentado sempre ali, com tudo pronto, fresquinho, nutritivo e saboroso. Ou talvez você esteja sendo esperado, porque o que você tem é exatamente o que está faltando.

Obs.1: Esse texto é uma interpretação do que Deus falou comigo, para mim, sobre mim neste tempo da minha vida. O “você” nas frases, é na verdade um “eu”. Se você se encaixou, bem vindo a mesa.

Obs. 2: Essa reflexão é fruto de 2 dias de aula no Seminário de Formação Cristã sobre “A Mesa”, que vieram me lembrar muito do que eu já sabia, mas que deliberadamente preferi deixar na gaveta.

Joio e trigo em nossos campos

DSC_1622_.jpg

Você já deve ter ouvido a expressão “separar o joio do trigo”. 

Esta expressão que atravessou as páginas da bíblia para ser usada por qualquer pessoa que queira se referir a separação do que é bom e mau é inspirada em uma parábola contada por Jesus no evangelho de Mateus. A narrativa é sobre um homem que plantou trigo, mas enquanto ele e seus empregados dormiam, uma erva daninha foi plantada junto com a boa semente. Quando a plantação cresceu, o joio apareceu e logo os empregados perguntaram ao patrão se deveriam arrancá-lo, pois ele prejudicaria o trigo. Porém, o patrão disse havia o risco de arrancar o trigo junto com o joio, mas que na colheita, o joio seria separado primeiro e queimado, enquanto o trigo seria guardado no celeiro.

Jesus estava comparando o reino dos céus a esta situação, e não era bem sobre agricultura que ele queria ensinar, mas sobre pessoas. 

Na “era da informação” somos expostos a opiniões e notícias o tempo todo. Desde que as pessoas passaram a não depender mais de grandes jornais, emissoras de rádio e TV para se informar, também passaram a rejeitar o trabalho dos profissionais da comunicação, acusando-os de modo geral a agirem com interesses conspiratórios e por isso, as pessoas juntam muitos fatos – verdadeiros ou não e acabam por construir sua própria notícia.

Para cristãos, a maioria esmagadora dos jornalistas é vista como inimiga, e sem caráter. Com isso, mobilizam boicotes de audiência a certas redes de comunicação, na intenção de enfraquecê-las e atribuem à mídia um poder realmente assustador de influência sobre as pessoas: desliguem os aparelhos, crentes na sala! Mas biblicamente isso não é muito coerente: Jesus não impedia que qualquer pessoa se expressasse, inclusive as que discordavam dele – e eram muitas. Ele não só as ouvia, como respondia a qualquer pergunta que lhe era feita.

Porém no Novo Testamento, nos quatro evangelhos que narram a vida do homem Jesus, é possível perceber que havia mais empenho Dele, em tornar Sua mensagem disponível do que para silenciar seus “oponentes”.

Quando Gutemberg criou a prensa, cristãos ficaram realmente animados com a impressão de bíblias com preço acessível para todos. Foi uma revolução. A igreja estava a frente de jornais, e mais tarde na produção de filmes e os cristãos se apaixonaram pelo rádio. Mas não tiveram o mesmo olhar para as novas tecnologias. O que antes era uma maneira de contar a VERDADE, passou a ser tratado como uma ameaça. 

É verdade que a imprensa tem muitas falhas, mas também é verdade que há muitos profissionais e donos de empresas de comunicação comprometidos em narrar os fatos, que nem sempre serão agradáveis a todos. Na defesa da verdade, não podemos desumanizar o outro porque ele diz o que não concordamos. Precisamos sim, filtrar, mas passar a nos preocupar mais com a mensagem que não estamos produzindo, do que com o que está sendo dito: a mídia só tem poder que nós, a audiência, damos a ela de nos influenciar.

Parece que Jesus não nos deu a missão de arrancar o joio, mas insistimos em tentar aniquilar o diferente, em prol de algo que defendemos, como um político que parece mais evangélico ou um grupo de pessoas que pense não somente parecido, mas igual a nós. 

Mas lembre-se que profetas não tinham compromisso com a verdade do rei e nem cumplicidade com os pecados do povo: ele mantinha a distância exata que lhe dava a liberdade de comunicar a verdade de Deus, com quem, de fato tinha aliança. Jesus não era comprometido com qualquer sistema.

Estabeleça em sua mente um alerta para qualquer conteúdo que desumaniza o outro, para informações em texto, vídeo, imagem, áudio que te deixem confortável demais, desafie-se a ler buscando compreender o contexto do que você não concorda. E pense quantas coisas compartilhou decidido a denegrir ou prejudicar alguém ao invés de comunicar a mensagem que você conhece e que as pessoas precisam.

DSC_1620